Esta representatividade não me interessa mais


No quarto dia de viagem pela Chapada Diamantina, eu e minha namorada decidimos pegar o carro para enfrentar uma trilha mais distante da pequena vila em que estávamos hospedadas. Foi minha primeira vez na Chapada — e, on top of that, eu não tenho absolutamente nenhum senso de direção. Se entro no elevador, já esqueci de que lado está a rua. Ela, por outro lado, visita a região desde criança; mesmo assim, seria primeira vez que faria aquele trajeto em particular.

Não nos preocupamos. Durante todas as férias, assumimos a premissa de que “bastava seguir os mochileiros”. Eles estavam por toda a parte em uma época tão movimentada do ano e pareciam sempre saber como atingir seus — nossos — destinos. A recíproca era verdadeira; sempre que podíamos, dávamos carona para viajantes tagarelas na estrada ou marcávamos pedras no meio das trilhas com setas indicando o caminho correto.

Portanto, este encontro específico não teria nada de incomum. Aconteceu assim: enquanto dirigíamos por uma estrada de terra esburacada, com a impressão de que já devíamos ter chegado a algum lugar, um jipe passou na direção contrária. Nós acenamos, o jipe parou. Abrimos as janelas.

E lá estavam duas mulheres em seus 60 anos, a mão da motorista apoiada casualmente na perna da outra. Elas sorriram, nos cumprimentaram, afirmaram que estávamos no caminho certo. Uma delas tinha os cabelos escuros na altura dos ombros, a outra, loiros e cortados curtos. Ambas de óculos escuros. E eu sabia, de olhar para elas, eu sabia que eram um casal.

“Você viu?” exclamei, com um sorriso indisfarçado, no momento em que o carro tornou a acelerar. “Somos nós no futuro!”.

Agora, eu sei que não parece ser um big deal. Mas quantos casais de lésbicas ou bissexuais mais velhas você conhece? Percebi que não conheço nenhum. Quantos assistimos na televisão ou nos cinemas? Consigo pensar em poucos.

Quando voltei a São Paulo, com a pulga da representatividade atrás da orelha, comecei a procurar filmes ou séries com temáticas LGBTQ. Aliás, filmes com protagonistas mulheres, com as quais eu pudesse me identificar. Assisti Carol, Kissing Jessica Stein, Azul é a Cor Mais Quente, Imagine Eu e Você, Amor por Direito, Elena Undone, entre outros, além de alguns vídeos no YouTube fazendo resenhas bem humoradas de filmes que não pude encontrar (o canal Girl Ship TV tem uma série ótima com essa temática, by the way).

O que eles têm em comum?

Na grande maioria deles, a trama se desenvolve em torno de as personagens serem queer. Esse é o cerne da história. E, normalmente, não há muito esforço colocado em variar o cenário: uma mulher que até então se acreditava heterossexual (seja uma adolescente ou uma senhora casada de meia idade) encontra uma mulher lésbica que a faz sentir “things I’ve never felt before”.

(On that note: o termo “bissexual” parece ter sido banido de todos os filmes. Ninguém nunca ouviu falar, essa possibilidade não existe. Beijou uma mulher? Uhu! Você “virou” lésbica).

De repente, ela descobre o que é amor de verdade, descobre que gosta de sexo (deus me livre que o sexo com seus parceiros homens fosse agradável! Você só se torna lésbica porque nenhum homem te pegou de jeito, meninas), descobre que toda a sua antiga vida não fazia sentido e precisa deixá-la para trás. Adicione à receita familiares ou amigos preconceituosos, uma cena em que o casal discute acaloradamente porque a “nova lésbica” não é capaz de assumir o relacionamento e pronto! Sucesso na certa.

Cena de Imagine Eu e Você (sim, é a Cersei!)

Don’t get me wrong, é importante falar sobre a pressão de sair do armário e a LGBTQfobia que, em tempos de Trump e Bolsonaro, nos cercam. Pode ser que esses filmes tenham de fato ajudado outras meninas e mulheres a se descobrirem, aceitarem ou assumirem e, se esse foi o caso, cada um deles tem seu mérito.

Entretanto, eu queria assistir a um filme em que uma mulher muda de cidade, ou está em crise na carreira, ou lidando com uma situação difícil com os filhos, ou fazendo uma viagem incrível, ou sofrendo de uma doença terminal, ou desvendando um mistério, ou solucionando crimes, ou salvando vidas, ou pilotando uma nave espacial, ou patinando no gelo, ou escrevendo um livro — e simplesmente acontece de ela se relacionar com outra mulher.

Eu queria assistir a um filme em que ser lésbica ou bissexual não seja por si só motivo de sofrimento nem o que define as duas personagens. Eu queria assistir mulheres com personalidades e interesses e passados bem definidos que norteiam seus destinos muito mais do que o mero fato de amarem outras mulheres.

Quando falamos de representatividade, não falamos apenas sobre números. Falamos de contexto. O fato de termos (poucos) personagens LGBTQ na mídia pode ser uma conquista ou uma prisão, se nos são mostradas sempre as mesmas perspectivas. Quando romantizamos o casal que supera preconceitos e violências para que possam ficar juntos, estamos também normalizando o preconceito e a violência, colocando na cabeça dos espectadores que isso é o que devem esperar, o mundo é assim, você terá que ser mais forte que o ódio se quiser ficar com quem ama.

Essa é a realidade para muita gente? É. E é importante escancará-la. Afinal, tiramos forças de histórias de superação, impulsionamos movimentos coletivos com a dor de injustiças. Mas também tiramos forças de fantasias e ficções, universos ideais em que nos imaginamos não precisar esconder amor.

Quando tratamos um assunto com naturalidade, contribuímos um pouquinho para que ele passe a ser recebido como normal. Isso deveria ser feito desde a infância. Eu quero crianças com pais ou mães gays em desenhos animados. Eu quero princesas da Disney que end up together, não porque isso vá “ensinar” qualquer criança a ser gay, e sim porque aquela menininha que já é queer e pensa que algo está errado com ela vai assistir e entender que está tudo bem.

E eu quero um filme de duas mulheres de 60 anos viajando juntas em seu jipe pela Chapada Diamantina.

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